Os mercados de Natal na Alsácia

 

Mercados de natal na AlsaciaAlsace – Lineimar Pereira Martins

O cheiro de cravo e de canela invade as cidades; bredalas e manalas decoram as vitrines das padarias; a fumaça que sobe das castanhas ao serem torradas parece aquecer as ruas dando uma impressão de fog londrino; vinho quente para esquentar os adultos e chocolate quente no lanche das crianças… tudo isso não deixa dúvidas, o inverno está chegando. Mas antes que ele se instale, rude e cinza, são as cores e os aromas, os sabores e as luzes dos mercados de Natal que dão o tom aqui na Alsácia.

Objetivamente falando, não há nada em particular para se fazer nos mercadinhos que se instalam em muitas das pequenas e grandes cidades alsacianas, a não ser andar pelas cabaninhas montadas para a ocasião admirando o artesanato – teoricamente – tradicional e provar guloseimas típicas da época e da região. Mas reina por aqui um não sei o quê de mágico, um clima quimérico e encantador. Nunca o natal havia sido tão Natal para mim.

E esse clima não predomina somente nas cidades e vilarejos que organizam tais mercados, ele está presente na maioria das 904 cidades e municípios que compõem a região que enfeitam-se com luzes brilhantes e papais noeis bonachões, imensas árvores cobertas de neve – natural – e brinquedos coloridos, e as inevitáveis creches na católica Alsácia com suas estrelas cadentes reluzentes.

O mercado de Natal de Estrasburgo comemora, esse ano, seu 443° aniversário e acolhe visitantes do mundo inteiro. A imensa árvore de 31 metros de altura já foi instalada na Praça Kléber no centro antigo da cidade e vai começar a ser decorada, devendo estar pronta no dia 29 de novembro quando inaugura-se oficialmente o evento. É o mais antigo, o maior e o mais tradicional de todos. Cada cidade propõe um tema para atrair visitantes, infelizmente não seria possível falar de todos. O de Altkirch, focaliza-se nas legendas misteriosas e decora a cidade como um grande livro de contos, instalando também uma pista de gelo para a garotada patinar. Já o mercado de Riquewihr tem a particularidade de representar o natal da Idade Média. A cidade em si é uma grande decoração medieval, os participantes vestem-se com roupas de época, carroças cruzam as ruas, artesãos representam atividades como eram exercidas antigamente, shows e encenações ao ar livre retratam hábitos e costumes de então.

Em Mulhouse é instalada uma imensa roda gigante que nos dá acesso a uma vista original da cidade, vemos de cima os tetos antigos e íngremes da região inclusive o teto da catedral. E depois, obviamente, descer para comer um chucrute light. Mas o meu preferido é o mercado de Colmar, eu deveria talvez dizer os mercados de Colmar, no plural, que cria diversos ambientes diferentes por toda a cidade. Gosto do chamado “mercado das crianças” instalado em uma pequena praça mas que tem tudo o que o meu filho curte e um imenso carrossel diferente dos que conheço, sobre o qual a neve cai na passagem do cavalinho. Nunca me esquecerei do brilho nos seus olhinhos quando chegamos aqui e ele o viu pela primeira vez. Ele tinha 5 aninhos. Será que hoje, aos 10, ele ainda ficará tão maravilhado quanto eu fico diante desse espetáculo feérico?

A tradição dos mercados de Natal foi – dizem – herdada da vizinha Alemanha. Os visitantes podem estender sua visita até Friburgo onde o ambiente é bastante descontraído e a cidade é linda. Ouvi dizer que o mercado de Neuenberg, logo depois da fronteira, é também bem legal mas confesso que nunca o visitei.
A verdade é que apesar dos mais de vinte anos de vida na Europa, os muitos natais aqui passados não conseguiram apagar meu encanto de marinheiro de primeira viagem ao descobrir uma decoração autêntica que me faz voltar diretamente a minha infância, singela e feliz, lembrando-me de quando eu e minhas irmãs colávamos algodão na nossa pequena árvore de Natal para imitar a neve dos países frios. Também não consigo evitar a voz embargada por uma imensa vontade de chorar ao ouvir as mesmas músicas que meu pai nos ensinava para cantar durante o Natal que passávamos sempre juntos. Saudade imensa…

 

CBF: Redação

O Jornal virtual da comunidade brasileira na França, é escrito por dezenas de colaboradores brasileiros na França, por correspondentes na Guiana francesa e no Brasil e convidados de paises onde haja imigrantes brasileiros. Se você deseja replicar alguma matéria, cite a fonte com link para o nosso jornal.

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